quarta-feira, 19 de agosto de 2015

POESIA: Augusto dos Anjos




Vamos falar de poesia.


Um dos poetas mais importantes da nossa literatura, cujo trabalho deixou um marco eterno na história da poesia nacional.


 

AUGUSTO DOS ANJOS




 

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos conhecido como Augusto dos Anjos foi um poeta da Paraíba que teve uma história de vida trágica e comovente. 
Nasceu em Sapé- Paraíba em 29 de abril de 1884 filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, e faleceu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914 .
Casou-se uma vez, e perdeu seu primeiro filho, que faleceu com apenas 7 meses de vida.  






Augusto dos Anjos nasceu num Engenho Pau d'Arco, no Estado da Paraíba. 
Foi educado nas primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908.
Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos sete anos de idade.






Solitário

"Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços-

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!"


É conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, focando suas críticas ao idealismo egocentrista que se emergia em sua época, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.


Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco, 
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
Na frialdade inorgânica da terra!


Foi identificado como o mais importante poeta do pré-modernismo, embora revele em sua poesia, raízes do simbolismo.
Estruturalmente, os poemas de Augusto dos Anjos apresentam rigor na forma e elevado conteúdo metafórico, sem ter apenas características simbolistas ou parnasianas. Por isso, Augusto dos Anjos pode ser considerado um poeta de transição. Utilizando-se de palavras consideradas estranhas e inadequadas, o poeta criou efeitos sonoros e rítmicos. Em sua obra, o poeta exprimiu o seu pessimismo, a angústia e a incerteza diante de um novo século. Outra característica bastante marcante de sua obra é a utilização de um vocabulário originário das Ciências Biológicas, tratando de temas como a morte e a decomposição da matéria, expressando, assim, uma visão trágica da existência.


Versos Íntimos

"Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"


Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907.
Em 1910 casou-se com Ester Fialho.
Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Durante muito tempo foi ignorado pela crítica, que julgou seu vocabulário mórbido e vulgar.


Trevas

"Haverá, por hipótese, nas geenas
Luz bastante fulmínea que transforme
Dentro da noite cavernosa e enorme
Minhas trevas anímicas serenas?!

Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?!
Não! Porque, na abismal substância informe,
Para convulsionar a alma que dorme
Todas as tempestades são pequenas!

Há de a Terra vibrar na ardência infinda
Do éter em branca luz transubstanciado,
Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo…

A própria Esfinge há de falar-vos ainda
E eu, somente eu, hei de ficar trancado
Na noite aterradora de mim mesmo!"


Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino.
Na casa em que residiu durante seus últimos meses de vida funciona hoje o Museu Espaço dos Anjos.
É patrono da cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras.


Vencedor

"Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!"


Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. 
De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. 
Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano.


Contrastes

"A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina.
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!..."


Durante sua vida, publicou vários poemas em jornais periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. 
Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu.
Seu livro Eu impressionou um grande público, mas causou espanto nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco e sua obsessão pela morte: "podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos". Como também por sua retórica delirante, por vezes criativa, por vezes absurda.


O Morcego

Meia-noite, ao meu quarto me recolho. 
Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede: 
Na bruta ardência orgânica da sede, 
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho 

” Vou mandar levantar outra parede …” 
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho 
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, 
Circularmente sobre minha rede  

Pego de um pau. Esforços faço. Chego 
A tocá-lo. Minh’alma se concentra. 
Que ventre produziu tão feio parto?!

A consciência humana é este morcego! 
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra 
Imperceptivelmente em nosso quarto.



Após sua morte, seu amigo Orris Soares organizou uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.


A fome e o amor

A um monstro

"Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbanjem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!"


Augusto dos Anjos é considerado hoje pela crítica literária o mais original dos poetas brasileiros.
Ao se ler seu trabalho pela primeira vez impossível descrever as emoções que nos tomam, de versos fortes, realistas e implacáveis, 


A Esperança

"A Esperança não murcha, ela não cansa, 
Também como ela não sucumbe a Crença, 
Vão-se sonhos nas asas da Descrença, 
Voltam sonhos nas asas da Esperança. 

Muita gente infeliz assim não pensa; 
No entanto o mundo é uma ilusão completa, 
E não é a Esperança por sentença 
Este laço que ao mundo nos manieta? 

Mocidade, portanto, ergue o teu grito, 
Sirva-te a Crença do fanal bendito, 
Salve-te a glória no futuro -- avança! 

E eu, que vivo atrelado ao desalento, 
Também espero o fim do meu tormento, 
Na voz da Morte a me bradar; descansa!"


Seu versejar fantástico tomado de força e ironia, o torna um dos maiores poetas de todos os tempos, devido a sua emoção a flor da pele e estilo tão intenso.


Mágoas
"Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.
Mais tarde da existência nos verdores
Da infância nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha infância nunca tive flores!
Volvendo a quadra azul da mocidade,
Minh'alma levo aflita à Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.
Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz de minhas dores!"





Pode se conhecer mais sobre a vida e morte de Augusto dos Anjos com o documentário 
"Eu, estranho personagem", feito em homenagem ao poeta, onde narram detalhes sobre sua vida e poesia.
Assista a "Eu, estranho personagem" aqui.


Como a maioria dos grandes e sensíveis poetas, ele se foi muito cedo.
A causa da sua morte precoce, aos 30 anos de idade, foi uma pneumonia acometida após uma longa gripe forte. 
Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar.


Eterna mágoa

"O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga
Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!"

Augusto era filho de senhores de engenho do açúcar, quando era jovem se apaixonou por uma moça pobre, que namorou, e a engravidou.
Sua mãe sabendo do ocorrido para se livrar da indesejada situação mandou surrarem a garota, que não resistiu e faleceu.
No poema A árvore da Serra Augusto fala sobre o seu amor pela jovem em forma de simbolismo:



A árvore da serra  

"— As árvores, meu filho, não têm alma! 
E esta árvore me serve de empecilho... 
É preciso cortá-la, pois, meu filho, 
Para que eu tenha uma velhice calma! 

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?! 
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! 
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho... 
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!» 
E quando a árvore, olhando a pátria serra, 

Caiu aos golpes do machado bronco, 
O moço triste se abraçou com o tronco 
E nunca mais se levantou da terra!"
    



Seu único trabalho em vida foi o livro EU.
Augusto deixou um legado brilhante, profundo e inesquecível.




O Condenado

Folga a justiça e geme a natureza- Bocage


"Alma feita somente de granito,
Condenada a sofrer cruel tortura
Pela rua sombria d'amargura
- Ei-lo que passa - réprobo maldito.

Olhar ao chão cravado e sempre fito,
Parece contemplar a sepultura
Das suas ilusões que a desventura
Desfez em pó no hórrido delito.

E, à cruz da expiação subindo mudo,
A vida a lhe fugir já sente prestes
Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.

O mundo é um sepulcro de tristeza.
Ali, por entre matas de ciprestes,
Folga a justiça e geme a natureza."




 

O Lamento das Coisas

"Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos
O choro da Energia abandonada!

E a dor da Força desaproveitada
- O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza.
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!"



Augusto dos Anjos teve apenas dois amigos em vida:  Santos Neto e Orris Soares.
Quando ele começou a publicar poemas em jornais na Paraíba, houve um professor que criticou seu trabalho o chamando de "Doutor Tristeza", ele então criou um poema irônico em resposta a essa severa crítica:



“Ilustre” professor da Carta Aberta: Almejo
Que uma alimentação a fiambre e a vinho e a queijo
Lhe fortaleça o corpo, e assim lhe fortaleça
As mãos, os pés, a perna, “etcetra” e a cabeça.
Continue a comer como um monstro no almoço
Inche como um balão, cresça como um colosso,
E vá crescendo e vá crescendo e vá crescendo,
E fique do tamanho extraordinário e horrendo
Do célebre Titão e do Hércules lendário;
O seu ventre se torne um ventre extraordinário.
Cheio de cheiro ruim de fétidos resíduos,

Seja um gigante, pois; não faça porém verso
De qualidade alguma e nem também me faça
Artigos transcendendo a bolor e a cachaça,
Ricos de incorreções e de erros de gramática.
Tenha vergonha, esconda essa sua tendência asnática
Que somente possui seu cérebro obtuso.
Esconda-a e nunca mais se exponha a fazer uso
Da pena, e nunca mais desenterra alfarrábios.
Os tolos em geral, são tidos como sábios,
Quando sabem calar-se e reprimir-se sabem.
O senhor é papalvo (poeta, tolo) e os papalvos não cabem
No centro literário e no centro político.
Respeite-me, portanto!"
O Poeta Raquítico.







O mar


"O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.


Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!


Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma.


Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!"

 

 


VIVA AUGUSTO. 

PARA SEMPRE EM SUA POESIA.







Um comentário:

  1. mestre sem mais
    único em toda poesia mundial.
    genial e incrível a forma que fazia poemas tão profundos com palavras tão dificeis.
    Adoro sem tirar nem por

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